Como controlar a pirueta de acordo com as Leis da Física

Sabe aquele bailarino que faz um milhão de piruetas e ainda termina no balance de frente para o público? Sim… Aquele que você pensa “Não pode ser… esse vídeo foi editado” ou “Esse aí fez um pacto com o diabo”.

Não tem pacto nenhum! Eles simplesmente aprenderam na prática como utilizar as leis da física.

“Ah nem! Não gosto de física, sou ruim em matemática, por isso que escolhi ser bailarino”. Se é assim que você pensa, seu caminho para ser um bom bailarino está mais longe do que você imagina.

Ok, você não precisa ter um diploma em física, e nem falei que matemática é fácil, mas entender como a física afeta o movimento (biomecânica) pode te ajudar e muito!

Para dar mais um empurrãozinho e ajudar a abrir a cabeça vou revelar um segredo: eu sou péssima em matemática. Quando quebro a cabeça para entender uma conta eu brinco que estudar biomecânica foi um erro de percurso. Porém, quando entendemos a beleza do movimento na forma de um gráfico tudo começa a fazer sentido e a técnica melhora porque a eficiência aumenta. Você passa a saber como controlar o seu corpo no espaço, ao invés de contar com sorte, talento ou repetições infinitas.

Vou tentar explicar da forma que fiz para poder entender.

Lembra da famosa inércia? Aquela lei de Newton que diz que um corpo parado (na frente da TV) tende a ficar parado e o corpo em movimento (dançando) tende a ficar em movimento até que uma força seja aplicada (professor mandando parar ou te ligando pra perguntar porque você não foi na aula)? Ela também se aplica as pieruetas.

“Isso significa que se eu encontrar o eixo eu poderia girar pra sempre?” Sim e não. Sim, se não tivessemos nenhuma força em oposição a esse movimento, não, porque temos várias forças em oposição ao movimento, como a gravidade e o atrito.

Imagine agora, que uma linha seja traçada no chão, como um compasso, durante o giro. Obviamente, como estamos girando essa linha formará um círculo ao redor do eixo (a perna de base). A distância do ponto mais afastado do corpo (braços abertos, ou perna na segunda posição, por exemplo) representam o raio desse círculo. Quanto mais próximo do eixo os membros estão, menor o raio do círculo.

“Mas o que a inércia tem a ver com o raio do círculo (literalmente falando)?”

O Momento de Inércia pode ser calculado pela fórmula:  I = m.r² , onde I é o momento de inércia, m a massa e r o raio.

Quando um bailarino executa uma sequência de piruetas, a massa dessa pessoa muda de uma pirueta pra outra? (Massa é aquilo que você tem quando pisa em uma balança e o que, erroneamente, muitas pessoas chamam de peso. A massa é medida em kg e o peso é a massa multiplicada pela atração da gravidade, dado em N).

Não! (Talvez sim de um dia pro outro, antes ou depois do almoço… mas não entre uma pirueta e outra).

Só tem mais uma coisa que afetaria o momento de inércia de acordo com a equação acima: o “raio” do raio, ou seja o raio ao quadrado.   🙂

Como todas as variáveis dessa equação estão no numerador significa que se eu aumentar a massa o momento de inércia vai aumentar, se eu aumentar o raio o momento de inércia vai aumentar. Similar, porém ao inverso acontece se eu resolver diminuir a massa ou o raio.

Esse é um dos motivos que pessoas baixinhas giram muito. Elas são normalmente leves (menor massa) e não são muito longilíneas (menor raio), consequentemente o momento de inércia (força para sair do estado parado e causar o movimento) é menor!

Ou seja, nas mesmas condições (mesmo atrito, mesmo balance e mesma posição – pirueta a la seconde por exemplo) a pessoa mais baixa gira mais do que a mais alta (lembrando que o raio do movimento, no caso da pirueta a la seconde, é definido pelo tamanho da perna da pessoa e não pela altura do bailarino, porém, como as pessoas mais altas possuem membros mais longos o raio tende a ser maior do que uma pessoa mais baixa na mesma posição).

“Ok, mas qual é a mágica para parar, ou acelerar ‘do nada’?” Não tem mágica.

A velocidade angular é representada pela fórmula ω = v/r, onde ω é a velocidade angular, v é a velocidade instantânea (naquele exato momento) e r é o raio (olha ele ai de novo gente!).

Como agora o raio está no denominador significa que as variáveis são inversamente proporcionais, ou seja, se eu aumentar o raio a velocidade diminue, e se eu diminuir o raio a velocidade aumenta. É exatamente isso que os bailarinos fazem quando querem frear (abrem os braços ou as pernas) ou acelerar (fecham os braços e as pernas) o movimento.

Utilizar o momento de inércia para controlar as piruetas ficou fácil agora. Tudo é uma questão de manter o eixo. Não consegue manter o eixo? Então não perca o próximo post sobre o equilíbrio.


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Barbara Pessali Marques
Barbara Pessali Marques

Bárbara Pessali-Marques é bailarina formada pelo CEFAR - Centro de formação Artística do Palácio das Artes/Fundação Clóvis Salgado, bacharel e licenciada em Educação Física pelo UNI-BH - Centro Universitário de Belo Horizonte, especialista em Treinamento Esportivo pela UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais e Mestre em Ciências do Esporte - UFMG. Diretora da produtora artística Multiart Ltda, fundadora e presidente da ONG OELO e Diretora do Bastidores Centro de Treinamento Personalizado, em Belo Horizonte; o único centro de treinamento especializado na preparação física de bailarinos do Brasil. Desenvolveu e registrou o método de treinamento específico para a dança “BPM-Best Performance and Movement” e um equipamento para mensuração e treinamento da flexibilidade em bailarinos. Foi co-fundadora, bailarina e preparadora física da Trama Cia de Dança e professora do curso de Educação Física e Pedagogia da Universidade do Estado de Minas Gerais – UEMG. É membro do laboratório de Biomecânica da UFMG, da Sociedade Brasileira de Biomecânica, da International Association for Dance Medicine and Science e o Bastidores é membro do International Dance Council - UNESCO. É doutoranda na Manchester Metropolitan University/Reino Unido pesquisando na área da Ciência da Dança. Foi contemplada com uma das sete bolsas de estudo oferecidas para área da saúde pelo Ciência sem Fronteiras/programa de doutorado pleno no exterior - CAPES, para a realização do seu doutorado na Inglaterra (país foco da produção científica em Ciências da Dança) com o intuito de ajudar a desenvolver esse campo no Brasil. É uma das integrantes e responsáveis pelo desenvolvimento da parceria entre o Reino Unido e o Brasil para a realização de pesquisas colaborativas nas Ciências da Dança entre estes países. É pesquisadora convidada no grupo de pesquisa em Psicologia do Esporte na UEMG Ibirité, em Biomecânica na USP e no Grupo de concepções em Danças Contemporâneas na UFMG. É professora do curso de graduação em Dança na Manchester Metropolitan University –UK. Autora do blog barbarapessalimarques.blogspot sobre preparação física para bailarinos, com intuito de diminuir a lacuna entre a teoria da ciência e a prática da dança.