Primeiros passos

Uma tra­je­tó­ria de mil pas­sos começa com o primeiro.

Não sei com quan­tos pas­sos se faz uma bai­la­rina, mas sei que o mais difí­cil deles é o primeiro.

E quanto mais a gente adia, mais difí­cil ele se torna. A minha pai­xão pelo bal­let foi adi­ada pela dita­dura. Aos treze anos, quando ensai­ava o meu pri­meiro passo, fui vio­len­ta­mente des­per­tada por uma rea­li­dade que não dei­xava dúvida: sobre­vi­ver, ape­nas, já era um grande sonho.E sobre­vi­ve­mos. Sobrevivemos à expul­são do meu pai, acu­sado de sub­ver­são pela Marinha. Sobrevivemos ao cho­que de rea­li­dade, que devo­rava com per­ver­si­dade uma alma de bailarina.

Por outro lado, caso não fosse essa a minha his­tó­ria, não esta­ria, hoje, podendo ins­pi­rar pes­soas na busca de suas rea­li­za­ções igual­mente tar­dias. Deus escreve certo por pas­sos tortos.

Não sei de quan­tos pas­sos será a minha tra­je­tó­ria, mas quero poder olhar para o pas­sado ali­vi­ada por ter dado o pri­meiro, que vai ficando cada vez mais dis­tante, enquanto o esforço do dia-a-dia vai desa­bro­chando uma ines­pe­rada bai­la­rina. E a espe­rança de que vai haver um “depois” nos ajuda a acei­tar um frus­trante “antes”.

Passo a passo, venho me equi­li­brando nesse sonho, que não exis­ti­ria se não fosse o pri­meiro. Olho para este vídeo, gra­vado em janeiro de 2012, e ao invés de sen­tir ver­go­nha pelas defi­ci­ên­cias que hoje enxergo tão cla­ra­mente, sinto é um alí­vio enorme de já ter supe­rado algu­mas delas. E isso é de uma feli­ci­dade imensa, a feli­ci­dade de reco­nhe­cer que, como já aler­tava Fernando Pessoa, tudo vale a pena, quando a alma não se apequena.


Comentários

Chris White

Como jornalista, Christine White trabalhou em grandes veículos de comunicação, no Brasil e nos Estados Unidos, até decidir, aos 50 anos, realizar um sonho antigo: tornar-se uma bailarina. E de técnica refinada. Aqui, ela relata o dia-a-dia da transformação que tem vivido desde janeiro de 2012. E com o mesmo apetite pela informação que marcou sua vivência como repórter, ora numa CNN, ora numa Rádio Jornal do Brasil; Christine encontra agora novos caminhos para seu aprendizado "tardio" do ballet, e divide conosco seus achados.

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